Descobrir a Vassoura no Século XXI: O Espetáculo da “Grande Proposta” do Chega em Vila Franca de Xira


Há partidos que apresentam reformas estruturais. Há partidos que apresentam alternativas de governação. E depois há quem apresente… o que já existe.

Em Vila Franca de Xira, o Chega conseguiu elevar a oposição performativa a uma nova arte: anunciar como proposta revolucionária algo que já faz parte da operação municipal.

O argumento é simples, visualmente eficaz e politicamente apelativo: mostrar contentores cheios, dramatizar o problema e prometer mudança. Até aqui, nada de novo. O detalhe embaraçoso surge quando se descobre que o “novo modelo” apresentado já está implementado nos serviços municipais.

Sim. Já existe.

E foi precisamente isso que ficou exposto na resposta pública do presidente da Câmara, Fernando Paulo Ferreira, e do vereador David Pato Ferreira: a proposta vendida como inovação não acrescentava rigorosamente nada ao que já está em funcionamento.



A política do óbvio inflamado

O método é conhecido: pegar num problema real, e a recolha de resíduos é um serviço essencial que merece atenção séria, simplificá-lo ao extremo e apresentar uma solução que soa decisiva, mesmo que seja redundante.

É o populismo do óbvio. Funciona nas redes sociais. Funciona em vídeos curtos. Funciona na indignação rápida.

Mas não resolve o problema.

Porque a questão da recolha não se resume à existência de um sistema. Resume-se a capacidade operacional.

Se há zonas onde os contentores acumulam resíduos, o debate sério não é sobre “instalar o que já está instalado”. É sobre:

  • dimensionamento de viaturas face ao crescimento populacional;
  • número de equipas operacionais;
  • reforço de pontos de deposição;
  • planeamento de circuitos;
  • fiscalização e responsabilização.

Tudo o resto é espuma comunicacional.

Explorar o problema em vez de o resolver

Há uma diferença clara entre fiscalizar e explorar.

Fiscalizar implica estudar dados, analisar relatórios, propor reforços orçamentais ou reorganizações operacionais. Explorar implica filmar um contentor cheio e transformar um serviço complexo numa narrativa simplista.

A recolha de resíduos é logística, gestão, planeamento e eficiência. Não é um slogan.

Se o concelho cresceu, a capacidade de resposta tem de crescer também. Isso exige decisões responsáveis, metas claras e transparência na execução, não anúncios de soluções que já constam do manual de operações.

A verdadeira inteligência

A verdadeira inteligência municipal não está no sensor.

Está na capacidade de:

  • medir desempenho,
  • ajustar recursos,
  • comunicar dados reais aos munícipes,
  • e tomar decisões baseadas em eficiência e não em marketing.

Se a discussão pública servir para isso, já terá valido a pena.

Caso contrário, ficamos apenas com mais um episódio em que alguém anuncia a descoberta da eletricidade… numa casa que já tem luz acesa.

E Vila Franca de Xira merece política adulta, não espetáculos de redescoberta do que já está a funcionar.

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