Política ou reality show?

 

Há comunicados políticos que servem para esclarecer. Outros contribuem para o debate público. E depois há aqueles que parecem ter sido escritos já a pensar no momento em que serão partilhados nas redes sociais, com o dramatismo necessário para gerar indignação instantânea, como se a política fosse apenas mais um episódio de um reality show.

O recente comunicado dos vereadores do Chega na Câmara Municipal de Vila Franca de Xira pertence claramente a esta última categoria.




Lendo o texto, ficamos com a sensação de que o país, ou pelo menos o concelho, está à beira de um colapso democrático. Fala-se de “grave atentado à transparência”, de “direitos fundamentais em causa”, de “retrocesso democrático dos últimos 50 anos”. A certa altura, quase esperamos encontrar no final um aviso dramático em letras maiúsculas: continua no próximo episódio.

Convém, no entanto, fazer um pequeno exercício de respiração política e colocar as coisas na devida proporção.

Reuniões extraordinárias em órgãos autárquicos não são um fenómeno paranormal. Acontecem. Aliás, acontecem frequentemente. E reuniões que não são abertas ao público também não são um atentado à democracia, são um instrumento previsto na lei e utilizado em inúmeras autarquias sempre que existem matérias administrativas, jurídicas ou procedimentais que o justificam.

Transformar uma questão procedimental numa espécie de crise institucional é um exercício curioso de dramatização política. Mas é também revelador de um estilo: quando não há um grande tema político, cria-se um.

Mas há um detalhe particularmente curioso neste episódio. Depois de todo o dramatismo do comunicado, depois das acusações, dos alertas sobre a democracia e do tom quase apocalíptico, o próprio Chega acabou por retirar os seus pontos da ordem de trabalhos.

Ou seja, afinal o problema talvez não fosse assim tão dramático.

Ficam então duas hipóteses.

A primeira é que alguém tenha finalmente percebido que muitas das “propostas” apresentadas eram, na verdade, cópias banais e inofensivas de medidas que já existem ou que já estão em execução. Uma espécie de exercício político de copy-paste administrativo que dificilmente justificaria todo aquele alarme institucional.

A segunda hipótese é ainda mais simples: algumas destas “propostas” parecem existir sobretudo para alimentar vídeos nas redes sociais, com o tom indignado e teatral que hoje parece obrigatório em certas estratégias de comunicação política. Uma política pensada em formato Big Brother: muito drama, muitas câmaras imaginárias, muita narrativa de conflito… e, no final, pouco conteúdo.

A política democrática, felizmente, é um pouco mais prosaica do que isso.

Governar, ou fiscalizar quem governa, implica discutir propostas, analisar documentos, preparar decisões e apresentar alternativas. Exige trabalho político sério, argumentos sólidos e capacidade de construir soluções. Não exige encenações permanentes nem indignação teatral.

Aliás, há outra questão que convém colocar: sabem qual é, muitas vezes, a verdadeira razão para o atraso de tantos pontos nas reuniões?

Talvez fosse útil começar por acabar com os intermináveis pontos de ordem à mesa, com as defesas de honra sem qualquer sentido e com a crispação permanente com quem dirige os trabalhos. Esse teatro processual, repetido reunião após reunião, consome mais tempo do que muitas decisões importantes.

Aquilo que recentemente se viu na Assembleia da República — entre a vice-presidente da Assembleia, Teresa Morais e os taberneiros políticos do Chega, liderados pelo arruaceiro de serviço, André Ventura, e a sua pequena guarda pretoriana, não é, afinal, um fenómeno exclusivo da Assembleia da República.

Em Vila Franca de Xira, esse estilo também aparece com frequência nas reuniões da Câmara. É, aparentemente, o modus operandi: tensão permanente, interrupções, dramatização e conflito constante como método político.

Tudo muito eficaz para gerar clipes de 30 segundos nas redes sociais.

Tudo muito pouco útil para resolver problemas concretos.

Aliás, há uma ironia curiosa neste comunicado: fala-se longamente de transparência, mas pouco se fala de propostas concretas para o concelho. Fala-se de liberdade de imprensa, mas quase nada de mobilidade, habitação, desenvolvimento económico ou qualidade dos serviços municipais, temas que, esses sim, interessam verdadeiramente aos cidadãos de Vila Franca de Xira.

Talvez porque discutir políticas públicas exige mais do que escrever comunicados inflamados.

A política local não é um palco de entretenimento. Não precisa de cliffhangers, nem de episódios dramáticos semanais. Precisa de seriedade, responsabilidade e sentido de proporção.

Os cidadãos esperam que os seus representantes discutam ideias, apresentem soluções e contribuam para melhorar o concelho. Não esperam que transformem cada procedimento administrativo numa crise democrática digna de um casting televisivo.

Em suma: há quem queira fazer política.
E há quem prefira fazer espetáculo.

O problema é que Vila Franca de Xira precisa da primeira, não do segundo.

Nota final: confesso que ainda não sei se devo agradecer o facto de certas reuniões passarem a ser à porta fechada. Pode até funcionar como uma espécie de higiene política, poupando-nos a alguns momentos menos edificantes. O problema é que, assim, também fico com menos material para escrever neste blog… o que, pensando bem, talvez seja o maior prejuízo democrático de todos.



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