“Se não estão a trabalhar que tomem conta dos filhos”: escolher errado as prioridades da educação
Frases como “Se
não estão a trabalhar que tomem conta dos filhos” revelam muito mais sobre
prioridades ideológicas do que sobre políticas públicas sérias. Ao invés de
discutir formas de expandir o acesso à educação e criar oportunidades para
todas as crianças, alguns preferem impor critérios punitivos que
condicionam direitos fundamentais à situação laboral dos pais.
O verdadeiro
debate não é sobre quem “merece” escola, mas sobre como garantir que cada
criança tenha a oportunidade de aprender, crescer e aceder ao elevador social,
independentemente do trabalho ou rendimento dos progenitores. A Constituição da
República Portuguesa é clara: todas as crianças têm direito à educação —
e esse direito não pode ser reduzido a slogans populistas ou moralismos sobre
produtividade.
Imaginemos o
raciocínio inverso: se a educação dependesse do emprego dos pais, estaríamos a
transformar um direito fundamental em uma espécie de prémio condicionado.
É aqui que a política populista falha: enquanto se preocupam em julgar os
adultos, esquecem o impacto real nas crianças e na mobilidade social do país. A
prioridade deveria ser ampliar a oferta educativa, melhorar a qualidade das
escolas e facilitar a conciliação entre família e trabalho, garantindo que
todas as crianças possam aceder às mesmas oportunidades, sem discriminação.
No fundo, a
pergunta essencial que devia guiar o debate não é “quem merece escola?”, mas como
podemos garantir que todas as crianças tenham acesso a educação de qualidade e
oportunidades para ascender socialmente, independentemente do trabalho dos
pais. É esta a visão de política educativa que constrói futuro, não slogans
demagógicos.
Notas adicionais:
É curioso — e inquietante — que num Estado laico se ouçam recitais
bíblicos em pleno plenário de uma Assembleia Municipal, desde agradecimentos a
Deus até referências a textos como Provérbios 31:8 ou a Carta de São
Paulo a Tito. Para além de ser um contrassenso institucional, esta prática
demonstra a confusão ideológica de quem mistura autoridade religiosa e
moralismo populista, quando a verdadeira prioridade deveria ser garantir direitos
universais e igualdade de oportunidades.
Mais um exemplo pitoresco
— e talvez mais revelador — desta montanha-russa ideológica. Em plena
Assembleia Municipal de Vila Franca de Xira, circulam relatos de que uma eleita
do Chega ostenta no seu computador uma etiqueta com a referência “1312”. Sim,
esse mesmo código historicamente associado à rejeição da autoridade policial. E
sim, estamos a falar do partido que passa metade do tempo a exigir “mais
polícia”, “mais autoridade” e “mão pesada”.
Nota Final: Vila
Francamente, para a semana há mais… mas talvez tudo isto seja apenas o destino
a imitar Atenas, onde já Aristófanes lembrava que a democracia nem sempre
escolhe os melhores — apenas escolhe quem aparece.
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