Apaga isso pá! Quando a política vira reality show

 Há quem veja três eleitos a conversar e pense: “estão a trabalhar”.

E há quem veja exatamente a mesma cena e pense: “escândalo, conspiração, traição à pátria”.
O vereador Barreira Soares, do Chega, pertence claramente à segunda escola. Uma simples conversa entre eleitos de diferentes partidos na Câmara de Vila Franca de Xira transforma-se, no seu enquadramento dramático, numa espécie de Conselho de Estado secreto, algures entre a maçonaria e o golpe palaciano.





Três autarcas trocam impressões? Claramente “vassalagem”.
Discutem o orçamento? Evidente “aliança nas sombras”.
Falam antes de uma votação? Inequívoco “acordo de bastidores”.
No universo do populismo performativo, o diálogo é sempre suspeito, a menos que seja transmitido em direto com indignação suficiente para gerar partilhas.
O mais extraordinário é esta ideia quase infantil de que a política democrática deve funcionar como um permanente duelo de espadas, onde ninguém fala com ninguém e cada um grita a sua pureza moral do alto da muralha. Conversar é comprometer-se. Comprometer-se é trair. Logo, o ideal é não falar, exceto para publicar posts inflamados.
Imaginar que eleitos de partidos diferentes possam conversar ou até alinhar posições em matérias concretas, parece ser, para alguns, um atentado à ordem natural das coisas. Como se a função de um vereador não fosse precisamente negociar, articular, influenciar decisões e procurar maiorias.
Mas não. Para certo estilo político, a governação só é legítima quando há conflito permanente. A moderação é suspeita. O entendimento é decadente. O diálogo é quase imoral.
É a política convertida em teatro moral: há os puros e há os vendidos. Há os que “denunciam” e há os que “se vendem”. E no meio disto tudo, desaparece aquilo que deveria importar, o conteúdo das decisões, o mérito das propostas, o impacto real no concelho.
Transformar uma conversa banal entre eleitos numa narrativa épica de traições é eficaz nas redes sociais. Simplifica o mundo. Alimenta a indignação. Cria a sensação confortável de que tudo se resume a “eles contra nós”.
Mas empobrece a política. E infantiliza os cidadãos.
Se houver alinhamentos políticos sobre o orçamento, o que se discute são os termos, as condições, as contrapartidas, as prioridades para Vila Franca de Xira. Isso é democracia representativa. Não é conspiração; é processo político.
Talvez o verdadeiro problema não seja a conversa entre eleitos.
Talvez seja a necessidade constante de transformar qualquer gesto institucional num episódio de novela, onde o protagonista é sempre o denunciante e nunca a solução.
Por isso, sim, apaga isso pá!
Ou pelo menos troca o filtro dramático por um pouco de maturidade democrática.

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