Iliteracia Financeira à Beira da Piscina


Há momentos na vida política local em que somos confrontados com ideias tão inovadoras, tão disruptivas, que obrigam a rever tudo o que julgávamos saber. A proposta do Chega em Vila Franca de Xira, essa brilhante defesa de usar capitais próprios em vez de recorrer a financiamento de longo prazo com juros baixos, é um desses momentos.

Confesso: depois de a ouvir, fiquei com a sensação de que décadas de teoria financeira, prática de gestão e até o simples bom senso estavam profundamente equivocados. Afinal, quem precisa de otimizar recursos quando se pode simplesmente… gastá-los todos?



A lógica é absolutamente desarmante na sua simplicidade: se temos dinheiro, usamos.

Se podemos pedir emprestado barato, ignoramos. Porque, evidentemente, pagar juros baixos é um escândalo, já gastar milhões de euros de uma só vez, eliminando margem para outros investimentos, isso sim, é responsabilidade.

É quase uma nova escola de pensamento. Podemos chamar-lhe “finanças por impulso” ou talvez “gestão à vista desarmada”.

No caso concreto das piscinas de Vialonga, a proposta implícita é digna de estudo académico. Em vez de distribuir o custo de um equipamento que vai servir várias gerações ao longo do tempo, recorrendo a financiamento de longo prazo, como qualquer entidade minimamente racional faria, opta-se por concentrar o esforço financeiro no presente.

Porque, aparentemente, a justiça intergeracional agora funciona assim: os contribuintes de hoje pagam tudo, os de amanhã agradecem… e o Chega fica com a fotografia.

É uma abordagem interessante. Não eficiente, não racional, mas certamente interessante.

E depois há o pequeno detalhe do custo de oportunidade, essa criatura mítica que raramente aparece nos discursos, mas que, infelizmente, existe.

Cada euro que a Câmara de Vila Franca de Xira decida enterrar nesta lógica é um euro que deixa de estar disponível para outras necessidades do concelho. Mobilidade? Fica para depois. Requalificação urbana? Logo se vê. Apoio social? Talvez para a próxima.

Mas ao menos não há dívida. Que alívio.

É curioso como, nesta narrativa, a dívida é tratada como um mal absoluto, quase moral. Uma espécie de pecado financeiro que deve ser evitado a todo o custo, mesmo quando esse custo é superior ao benefício.

Ignora-se, com uma leveza admirável, que a dívida, quando bem utilizada e em condições favoráveis, é uma ferramenta essencial de gestão. Não é um problema. É um instrumento.

Mas isso implicaria perceber conceitos como taxa de juro real, custo de capital ou alavancagem. E, sejamos honestos, isso já exige um nível de literacia financeira que claramente não faz parte do pacote político em questão.

O mais fascinante é a confiança.

A segurança com que se defende que pagar tudo a pronto é sempre melhor. A tranquilidade com que se ignora qualquer análise minimamente séria. A convicção quase heróica de que se está a proteger o interesse público… enquanto se toma uma decisão que qualquer gestor evitaria cuidadosamente.

No fundo, é uma espécie de populismo financeiro: simplifica-se tudo até ao ponto de se tornar errado, mas mantém-se um tom de autoridade que dispensa explicações.

E funciona. Porque é fácil de perceber.

“Não devemos nada.”
“Pagamos com o que é nosso.”

Claro. E se possível, pagamos mais, mas isso já não cabe no slogan.

No final, sobra uma conclusão inevitável: não estamos perante uma estratégia financeira.

Estamos perante um exercício de ilusionismo político, onde se troca racionalidade por aplauso fácil.

E, ironicamente, quem acaba por pagar o preço dessa ilusão não é quem a defende.

São, como sempre, os munícipes de Vila Franca de Xira.




Comentários

Mensagens populares deste blogue

“Se não estavas preparado, não vinhas”

Descobrir a Vassoura no Século XXI: O Espetáculo da “Grande Proposta” do Chega em Vila Franca de Xira

Política ou reality show?