“Modelo socialista e keynesiano: aumento da despesa pública é visto como o motor do desenvolvimento”, ou como reinventar a teoria económica numa reunião de câmara municipal.
Eu queria estar
sossegado, mas há declarações políticas que exigem contraditório. Outras pedem
análise. E depois há aquelas que merecem apenas um breve momento de
contemplação, como quem observa um fenómeno raro da natureza — antes de se
aceitar que, sim, foi mesmo dito em voz alta: “modelo socialista e keynesiano:
aumento da despesa pública é visto como o motor do desenvolvimento”.
É uma frase
notável. Não apenas pelo conteúdo, mas pela ambição: em poucas palavras,
consegue simplificar, e simultaneamente deturpar, décadas de pensamento
económico e ainda redesenhar o próprio John Maynard Keynes como um ideólogo
socialista. Um feito assinalável.
Keynes, esse
conhecido revolucionário marxista de Bloomsbury, que passou a vida a tentar
salvar o capitalismo… claramente estava só a disfarçar.
Se a lógica for
essa, qualquer economista que admita que o Estado possa, em momentos
excecionais, fazer algo mais do que observar com ar grave enquanto tudo
colapsa, passa automaticamente a integrar o panteão socialista. Por esse
critério, talvez seja prudente começar a rever bibliografias inteiras, com
especial atenção a Friedrich Hayek, não vá alguém descobrir que também ele, por
reconhecer um papel mínimo ao Estado, afinal estava perigosamente “à esquerda”.
Mas há aqui duas
confusões distintas e cumulativas.
A primeira é
tratar Keynes como socialista. Não era. Nunca foi. Não defendia a abolição da
propriedade privada, nem a planificação central da economia, nem a substituição
do mercado pelo Estado. O seu objetivo era precisamente o oposto: evitar que as
crises do capitalismo levassem ao seu colapso e abrissem espaço a soluções
verdadeiramente socialistas ou autoritárias. Era um pragmático, não um
revolucionário.
A segunda é
reduzir o chamado “keynesianismo” a uma ideia quase infantil: gastar mais gera
automaticamente desenvolvimento. Se assim fosse, bastaria aumentar orçamentos
para resolver problemas estruturais — e países com maior despesa pública
seriam, invariavelmente, os mais desenvolvidos. A realidade, como é hábito, é
ligeiramente mais complexa.
Keynes defendia
intervenção em contextos específicos, recessões profundas, falhas de procura
agregada, momentos de bloqueio económico, e não um Estado permanentemente
expansionista como motor universal da economia. Transformar uma ferramenta de
estabilização num modelo de desenvolvimento é como usar um extintor como
sistema de rega: pode funcionar uma vez, mas dificilmente é uma estratégia.
Mas há algo de
reconfortante nesta simplificação extrema: elimina-se a complexidade,
dispensa-se a leitura e ganha-se tempo para o essencial, a convicção.
Importa dizer,
com alguma frontalidade, que alguém que apelidasse Keynes de socialista
dificilmente resistiria a cinco minutos numa aula de política económica
minimamente exigente. Nas aulas do Prof. António Rebelo de Sousa, por exemplo,
essa afirmação não passaria do primeiro minuto sem ser desmontada com a
serenidade pedagógica de quem distingue opinião de conhecimento. É que há uma
diferença relevante entre discordar de uma escola económica e simplesmente não
a compreender.
No fundo, esta
frase revela mais sobre a cultura do debate do que sobre economia. Uma cultura
onde etiquetas substituem argumentos, onde “socialista” serve como rótulo
universal e onde o aumento da despesa pública é confundido com estratégia de
desenvolvimento, independentemente da sua qualidade, eficiência ou impacto
real.
O Estado não cria riqueza por decreto; redistribui-a. Cada euro gasto tem origem em impostos, dívida ou inflação. Ignorar isto enquanto se proclama a despesa como “motor” é menos uma teoria económica e mais um ato de fé.
No meio disto
tudo, sobra uma conclusão simples: quando não se sabe de teoria económica, o
melhor contributo para o debate público continua a ser o silêncio. Não por
falta de liberdade de expressão, mas por respeito à inteligência alheia.
E, já agora, uma
sugestão final: antes de citar Keynes ou tentar explicar a sua teoria
económica, convém fazer o exercício básico, abrir um livro. Ou vários. Fica, a título de exemplo, uma
pequena lista de leitura de John Maynard Keynes: The General Theory of
Employment, Interest and Money, A Treatise on Money, The Economic
Consequences of the Peace e Essays in Persuasion. Pode não
resolver todos os debates políticos, mas pelo menos evita alguns momentos
embaraçosos.
Infelizmente,
esse princípio ainda não consta da ordem de trabalhos, nem se atinge com pontos
de ordem à mesa ou defesas da honra.
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