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Iliteracia Financeira à Beira da Piscina

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Há momentos na vida política local em que somos confrontados com ideias tão inovadoras, tão disruptivas, que obrigam a rever tudo o que julgávamos saber. A proposta do Chega em Vila Franca de Xira, essa brilhante defesa de usar capitais próprios em vez de recorrer a financiamento de longo prazo com juros baixos, é um desses momentos. Confesso: depois de a ouvir, fiquei com a sensação de que décadas de teoria financeira, prática de gestão e até o simples bom senso estavam profundamente equivocados. Afinal, quem precisa de otimizar recursos quando se pode simplesmente… gastá-los todos? A lógica é absolutamente desarmante na sua simplicidade: se temos dinheiro, usamos. Se podemos pedir emprestado barato, ignoramos. Porque, evidentemente, pagar juros baixos é um escândalo, já gastar milhões de euros de uma só vez, eliminando margem para outros investimentos, isso sim, é responsabilidade. É quase uma nova escola de pensamento. Podemos chamar-lhe “finanças por impulso” ou talvez “ges...

Política ou reality show?

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  Há comunicados políticos que servem para esclarecer. Outros contribuem para o debate público. E depois há aqueles que parecem ter sido escritos já a pensar no momento em que serão partilhados nas redes sociais, com o dramatismo necessário para gerar indignação instantânea, como se a política fosse apenas mais um episódio de um reality show. O recente comunicado dos vereadores do Chega na Câmara Municipal de Vila Franca de Xira pertence claramente a esta última categoria. Lendo o texto, ficamos com a sensação de que o país, ou pelo menos o concelho, está à beira de um colapso democrático. Fala-se de “grave atentado à transparência”, de “direitos fundamentais em causa”, de “retrocesso democrático dos últimos 50 anos”. A certa altura, quase esperamos encontrar no final um aviso dramático em letras maiúsculas: continua no próximo episódio . Convém, no entanto, fazer um pequeno exercício de respiração política e colocar as coisas na devida proporção. Reuniões extraordinárias e...

Apaga isso pá! Quando a política vira reality show

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  Há quem veja três eleitos a conversar e pense: “estão a trabalhar”. E há quem veja exatamente a mesma cena e pense: “escândalo, conspiração, traição à pátria”. O vereador Barreira Soares, do Chega, pertence claramente à segunda escola. Uma simples conversa entre eleitos de diferentes partidos na Câmara de Vila Franca de Xira transforma-se, no seu enquadramento dramático, numa espécie de Conselho de Estado secreto, algures entre a maçonaria e o golpe palaciano. Três autarcas trocam impressões? Claramente “vassalagem”. Discutem o orçamento? Evidente “aliança nas sombras”. Falam antes de uma votação? Inequívoco “acordo de bastidores”. No universo do populismo performativo, o diálogo é sempre suspeito, a menos que seja transmitido em direto com indignação suficiente para gerar partilhas. O mais extraordinário é esta ideia quase infantil de que a política democrática deve funcionar como um permanente duelo de espadas, onde ninguém fala com ninguém e cada um grita a sua pureza moral do...

Descobrir a Vassoura no Século XXI: O Espetáculo da “Grande Proposta” do Chega em Vila Franca de Xira

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Há partidos que apresentam reformas estruturais. Há partidos que apresentam alternativas de governação. E depois há quem apresente… o que já existe. Em Vila Franca de Xira, o Chega conseguiu elevar a oposição performativa a uma nova arte: anunciar como proposta revolucionária algo que já faz parte da operação municipal. O argumento é simples, visualmente eficaz e politicamente apelativo: mostrar contentores cheios, dramatizar o problema e prometer mudança. Até aqui, nada de novo. O detalhe embaraçoso surge quando se descobre que o “novo modelo” apresentado já está implementado nos serviços municipais. Sim. Já existe. E foi precisamente isso que ficou exposto na resposta pública do presidente da Câmara, Fernando Paulo Ferreira, e do vereador David Pato Ferreira: a proposta vendida como inovação não acrescentava rigorosamente nada ao que já está em funcionamento. A política do óbvio inflamado O método é conhecido: pegar num problema real, e a recolha de resíduos...

“Se não estão a trabalhar que tomem conta dos filhos”: escolher errado as prioridades da educação

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  Frases como “Se não estão a trabalhar que tomem conta dos filhos” revelam muito mais sobre prioridades ideológicas do que sobre políticas públicas sérias. Ao invés de discutir formas de expandir o acesso à educação e criar oportunidades para todas as crianças , alguns preferem impor critérios punitivos que condicionam direitos fundamentais à situação laboral dos pais. O verdadeiro debate não é sobre quem “merece” escola, mas sobre como garantir que cada criança tenha a oportunidade de aprender, crescer e aceder ao elevador social , independentemente do trabalho ou rendimento dos progenitores. A Constituição da República Portuguesa é clara: todas as crianças têm direito à educação — e esse direito não pode ser reduzido a slogans populistas ou moralismos sobre produtividade. Imaginemos o raciocínio inverso: se a educação dependesse do emprego dos pais, estaríamos a transformar um direito fundamental em uma espécie de prémio condicionado . É aqui que a política populista falha: en...

“Se não estavas preparado, não vinhas”

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Há momentos na vida política local que são verdadeiros estudos de caso — não sobre governação, mas sobre improvisação. Um desses momentos deu-se quando um vereador, cheio de convicção e indignação moral, decidiu perorar sobre contratos públicos. O problema? Não fazia a mais pequena ideia do que estava a dizer. Entre o ato de adjudicação e o auto de receção da obra, perdeu-se algures o fio à meada — e a dignidade do debate. É que uma coisa é adjudicar, ou seja, decidir a quem se vai atribuir a obra; outra, muito diferente, é receber a obra concluída. Mas na cabeça do nosso estudioso improvisado, tudo parecia caber no mesmo saco de confusões administrativas, embrulhado em discursos sobre “transparência” e “rigor”. É de aplaudir, de facto, a coragem de falar com tanta segurança sobre aquilo que manifestamente não se entende. O problema é que o país está cheio de especialistas em “parece que sei”, e curto de gente que estuda, lê e se prepara. O estudo, meus senhores, não é um adereço — é a...